A saia plissada do vestido, leve e negro, estampado com aros regulares de um verde-intenso, contrasta, ligeiramente erguida, com a claridade dos joelhos dobrados.
Ao sabor dessas alternâncias, meus períodos, irregulares e às vezes lancinantes, sem que ninguém saiba, oscilam.
Crio um casulo de trevas e no centro da escuridão faço a pergunta.
A sensualidade dos que a edificam manifesta-se em cada aresta de parede.
Nosso olhar: dois buracos, um em frente ao outro. Um espelho na frente de outro espelho.
Quando, ao fim da tarde, beija-me no alpendre e parte (e quantas vezes, ao voltar-se no portão, corre, sobe os degraus, beija-me ainda?), rangem as paredes da casa.
Conhecer cada um que avança a nosso lado? Sentir cada um? Amar cada um?
Esse jogo de espádua dissimulado e preciso, reflete-se nas costas, cavando a curva acima das nádegas trêmulas e ressaltando, pelo contraste, o seu modelado.
A máquina estala entre meus dedos, clique do obturador, passar do filme, Roos, fugidia e móvel, presa em flagrantes imóveis, nos quais amanhã, depois, depois, tentarei recuperar — o quê?
Aduzir que não se destina a invenção de Julius, como em tantos relógios, a anunciar as horas, parece-nos ocioso.
nós e as mariposas nós e girassóis nós e o pássaro benévolo mais e mais distantes latidos dos cachorros
Natividade, apertando o dinheiro no bolso do vestido e procurando entender, para no meio da escada.
Ele voa, o pássaro, da mesa para o chão e do chão para cima do relógio, como se fosse oco, um pássaro de ar.
Súbito, parece-me ver, perto do balcão, Cecília, há onze dias presente — uma surdez, uma dormência — em mim. Aproximo-me. Nenhum dos rostos aí agrupados lembra o seu.
Natividade ante a sua almofada de rendeira, quatro bilros nas mãos.
— A indiferença do escritor é adequada à sua presumível elevação de espírito?
As engrenagens de som armam-se nas trevas móveis do relógio: faltam quatro minutos para as cinco, estão no ar os dados.
Mas não serão essas aves, seus bicos de espada, uma outra espécie de mar, sem nome de mar?
Mordidas pelos ratos e saúvas do báratro, turvadas pelo lixo da enxurrada, sucessivamente lustradas pelas águas dos condutos e contaminadas pelas podridões e fezes e mênstruos e urinas e escarros e vômitos e fetos abortados que descem pelas bocas dos vasos sanitários.
Escapa dos meus braços e senta-se sobre as pernas, meio apoiada nos longos dedos ágeis sem anéis, de frente para mim, réplica, em outro plano, da luminosidade íntima que vibra em tudo.