Cansa-me ser assim quem sou agora: planície, monte, treva, transparência.
hilda hilst bot
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Para cantar mais alto é até preciso desdobrar-se em afetos e amar seja o que for, luares e desertos e cantigas de roda e ditirambos.
Pedimos tudo o que os senhores vão jogar no lixo (...) O que jogaram de Tolstói e Filosofia não dá para acreditar! Tenho meia dúzia daquela obra-prima A morte de Ivan Ilitch (...) e duzentos e dez O capital. (Jogam fora muito esse último, parece que saiu de moda, creio eu.)
Matamoros dos sonhos esquecida, vê-se tomada de sonhos no muito denominado concreto da vida, e o que vem a ser isso de sonho e verdade?
Tenho pena do poeta feito para só ser pai… e ser poeta. E daqueles que dormem sobre o papel à espera do vocábulo e dos que fazem filhos por acaso e dos doidos e do cão que passa e de mim… que espero a morte na confusão e no medo.
Atravessaremos juntos as grandes espirais, a artéria estendida do silêncio, o vão, o patamar do tempo?
Despe-te das palavras e te aquece. Toma nas mãos esses odres de terra e como quem passeia, leva-os ao mar.
Se convivesses unânime como as estrias do dorso desse tigre convivem com seu todo te farias mais garra? Mais crueza?
E a um só tempo vivo e vou morrendo. Entre terra e água meu existir anfíbio.
(Porque nada sabemos de pássaros e voos e do impulso alheio)
E ainda que as janelas se fechem, meu pai, é certo que amanhece.
Tudo entra dentro de mim, tudo sai. Não tem nada que só entra? Não. E Deus? Deus entra e sai, Ehud? Isso não sei. O padre diz que Deus está dentro do coração. Então espia o teu, vê se ele tá lá dentro.
Ele foi até a cozinha. Ela sorria. Ele voltou com uma faca dentro de uma bacia de água. Lembrou-se do Polanski: A faca na água (...) Algumas pessoas que andavam pela rua tentaram adivinhar de onde vinham os gritos. Mas tudo silenciou de repente. E todos continuaram andando.
(...) sim, porque ninguém quer ser o medo de si mesmo.
Antes da minha morte eu tocava nas coisas, sim, tocava-as, mas não descobria o mais fundo, os meus dedos apenas deslizavam e aquele toque era fugidio, e a sensação daquele toque não se fixava em mim, apenas existia enquanto eu estava ali, tateando. Agora, tudo faz parte de mim.
Tragam esta poesia que é preciso falar da amiga que se indo embora demora até voltar. E deste amor de pensá-la sem revê-la nascerá o meu canto mais sentido que o cantar dos amantes satisfeitos.
(...) encontrar dentro de mim uns clarões, umas auroras boreais, uns repentinos rojões, inocências, queria tanto amar todos (...) se falo assim é para que você compreenda a delicadeza delicadíssima da minha alma, como tudo me surpreende, como tudo se distende dentro de mim.
Calma, calma, também tudo não é assim escuridão e morte.
Desosso a rima. Fica-me o osso. Lavadas águas lambem-me o dorso. Destorço meu cordão de penas, emplumo-me. Alço voo. E caio espatifada no poema.
Agora sou espírito. Estou livre e sobrevoo meu ser de miséria, meu abandono, o nada que me coube e que me fiz na Terra. Estou subindo, úmido de névoa.
Deixa menina que eu diga aquela palavra louca no teu ouvido… Não ouças! mas deixa, porque no amor as palavras se transformam e têm um outro sentido.
Convém dizer que também eu de muita beleza me fizera, andava pela casa Matamoros muito leve, muito de asa, um pequeno cansaço sabendo a descanso, cansaço amoroso pois que cada noite era noite de abraço, de mastigar e de lamber a carne (...)
Ehud me dizia, Derrelição — pela última vez Hillé, Derrelição quer dizer desamparo, abandono, e porque me perguntas a cada dia e não reténs, daqui por diante te chamo A Senhora D. D de Derrelição, ouviu?
E o cachorro vira-lata naquele canto da rua… te lembras? Inventaste uma fala de puro medo que eu o trouxesse para casa, não foi? Pedras e vira-latas, plantas também (...) alma dos cães, da pedra, da planta, por incrível que pareça ando buscando a tua.
É sempre a mesma noite na tua face. Enquanto choras há lá fora um canto que de chorares tanto não o sabes. Bem sei que a noite é imóvel na tua face e não te peço alegria. Mas tu ardes.
É porque Édipo está mal. (...) Anda lendo um austríaco, um tal de Freud, e não se sente bem.
Tinha o rosto de uns rios: quebradiço e terroso. O peito carregado de ametistas.