Sérgio Rodrigues

@todoprosa.bsky.social

Escritor, autor de “Escrever é humano”, “O drible”, “A vida futura” etc.

O sonho da internet era que os seres humanos, expostos a informação infinita, se tornariam mais sábios. Corta para o presidente dos EUA anunciando em rede social: "Uma civilização inteira morrerá esta noite". Opa, parece que alguma coisa deu errado aqui.

Bild

Por se confundirem com a lei e a administração pública numa terra que até um punhado de décadas atrás tinha sólida maioria analfabeta, as letras sempre tiveram por aqui papel mais de cifrar, impressionar e intimidar do que de decifrar, debater e produzir conhecimento.

Bild

Gente pedindo Neymar na Copa (entre ex-jogadores sou mais o Zico) diante da derrota feia para uma França afiada ilustra bem o buraco em que a seleção se meteu. Um ciclo jogado no lixo pela CBF e Ancelotti trazido na última hora como salvador são outros lados do mesmo pensamento mágico.

Nunca foi tão fácil confundir, criar incerteza, fugir de regulações, pôr abaixo estruturas psicossociais construídas ao longo de séculos, transformando toda a população da Terra em cobaia de artefatos tecnológicos que são propriedade de meia dúzia de pessoas.

Bild

Você pronuncia "recórde"? Direito seu. Aqui em casa, como parece ser o caso na maioria das casas brasileiras, sempre foi "récorde". Depois de muito relutar, nossos melhores dicionários registram hoje essa forma. Bom pra eles, mas isso é secundário. A língua brasileira já a tinha adotado faz tempo.

Não tenho os medos do Paul, o que me assusta é um pesadelo linguístico: ser rebaixado a diminutivo pela brava turma da enfermagem brasileira, viciada em tratar o pessoal de 64 como se tivesse 60 a menos: “Dá o bracinho, fofinho. É só uma picadinha”. Isso não, por favor! O resto, pode mandar vir.

Bild

O barata-voa começa quando se busca a origem. Embora uma tese sóbria derive ianque simplesmente do holandês “Janke” (Joãozinho), o Merriam-Webster etimológico enumera uma série de teorias descabeladas e considera o caso aberto. Do cherokee ao persa (!), ‘ianque’ é uma palavra cercada de lendas.

Bild

Um dia, entediada, a humanidade teve uma ideia: entregar a informação pública para "influenciadores", a arte e o pensamento crítico para a IA, a intimidade de todo mundo para alguns bilionários e a geopolítica para o Trump. Vai ser tão divertido, pensou, sem saber que era seu último pensamento.

“O importante é jamais perder o foco em resultados! O fim do mundo possui múltiplas camadas, e só na última é que tudo acaba, quer dizer, finaliza mesmo. Até lá, apesar de todo o marketing, é inútil esperar que o fim do mundo entregue apocalipse.” — CEO do Juízo Final

Seria burrice, se não fosse desonestidade, reclamar que "O agente secreto" tematiza a ditadura. As escolhas políticas desses queixosos ("ninguém aguenta mais!") abriram caminho ao golpe de Bolsonaro, provando que a superação do tema está muito distante. Ainda virão muitos filmes, livros, peças etc.

A pessoa que diz que a IA é "só mais uma ferramenta", como um dia foram a prensa de Gutemberg e o processador de texto, já abriu mão de pensar – o que, aliás, estava nos planos das big techs desde o início.

IA consome toneladas de água por minuto. IA rouba conteúdo de artistas. IA é a maior ferramenta da extrema-direita com o aparato das Big Techs. Não é possível que estejamos em 2026 e ainda tenha gente de esquerda que não saiba disso.